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Eu tenho mais de vinte muros

ANNA - 21 - BRASIL
Eu sou isto, não há tantos mistérios em mim quanto possa parecer. Eu sou um pouco de vazio, um pouco de irrealidade, um pouco de dramatizaçao. Eu sou mais espinhos do que flores. Mais para la do que para ca. Mais cinza do que preta ou branca. Eu sou evasão que grita por sentido, um emaranhado de pensamentos sobrepostos, uma sucessão de coitos interrompidos. Eu sou uma borboleta magra de asas muito pesadas .

Catarse

olhonufitandoatomo:

Eu visto a fantasia de três mil vidas a cada noite porque fui abençoada com o dom de sonhar uma particularidade para cada pluma do travesseiro, doutor. Porque a vida não corresponde às minhas medidas. Porque os compartimentos não me cabem. Porque eu não seguro as mãos dos colegas quando é feita a roda de ciranda. Porque o ápice do meu ser, suave ou rude, gritante ou cândido, é corpo-e-alma adentro.
De abismos a arranha-céus, de rasos lagos a limbos caleidoscópicos. Eu atravesso os reinos, as fortalezas, as torres. Eu mergulho em mares e sirvo de alimento a monstros, perfuro olhos sem donos e descubro atalhos no arco-íris. Queimada na fogueira como bruxa, polvilhada de brilhantes como fada, rodeada de flores e odores e pores e nasceres do sol. Minha estesia dá-se diante de olhos de furacões e centros de cardumes, de manchas no corpo e olhares sem íris – agradáveis monocromáticos.
Porque sempre me olham de esguelha se eu confesso para aqueles com os quais convivo, num ataque de sinceridade que me deixa à mercê das invasões em tudo o que de mais precioso tenho e tanto me custa esconder, que o auge da intensidade que me arranca do corpo e transcende todos meus dezenoves anos ocorre justamente quando descanso os cílios do trabalho de conterem a umidade dos olhos cansados, doutor.
Porque acordada, entregue a isto que chamam de “real”, ninguém me permite ter o olhar etéreo. E se eu grito que minha realidade é minha realidade, e que minhas árvores não são iguais as de ninguém, e que minhas calçadas são esburacadas mesmo com azulejos, e que o sol a meu ver é uma brasa muito eficiente, e que o mar deveria viver mais de ressacas, e que ninguém deveria enxugar as lágrimas de outra pessoa e invadir sua tristeza, e que o país inteiro é uma bela camuflagem, e que os piratas deveriam reiniciar suas caçadas, e que eu poderia fundar uma vila só para leitores, e que em um lugar onde todo mundo é belo, na verdade, ninguém é belo, uma multidão inteira faz questão de gritar em uníssono para que eu tranque os lábios com cadeado e nunca mais me atreva a matracar tolices.
Eu me escondo assim, doutor, para viver nos sonhos. Ninguém estanca os pés ao meu lado para me esperar acompanhar os passos ritmados de uma senhora alegre que dança entre as ruas do comércio. À noite, eu sou a dona dos salões repletos.
Eu me contraio assim, doutor, para sentir, à cama, tudo realçado. Ninguém aguarda eu comprar dois cachos de uva ou selecionar acerolas e colher as frutas direto do pé. À noite, eu sou a garota dos pomares multicoloridos.
Eu me finjo assim, doutor, para ser verdadeira no abismo da mente. Ninguém entende os fones de ouvido que tocam o silêncio, respeitosos ao meu desejo de escutar o mudo. À noite, eu sou a herdeira do mundo cor-de-cinza.
À noite eu rio, doutor, eu extasio, eu extraio as gargalhadas e sinto, como jamais senti, e danço até mesmo depois do lado B do LP acabar, e sou eu, mesmo fora do corpo, mas ainda assim em mim. Eu encontro. Eu perco. E vivo a liberdade de ser presa – no surreal.
Seria demais pedir para viver disto? De prazer pleno? De eterno gozo? De satisfação à mão? Eu sei, doutor. Seria. A libertação é temporária e escassa justamente para me satisfazer o deleite. “Quando tudo é belo, nada é belo”. Eu mesma citei. Por isso levanto todas as manhãs com os olhos chorosos e descubro por entre o manto que me cobre a coragem para viver no concreto – para apanhar as lágrimas com as mãos em concha e, como em oferenda, elevar o cálice improvisado aos céus afim de que, após breve prece ao cosmos, eu possa beber do salobro sem me intoxicar.

Claudia Calado

(Source: f-earlessness)

ao amar:

quebraroutroespelho:

eu lamberia cada corte que a realidade te fez.

moscou, 1821

(Source: berrlin)


She is sex on a stick. 

She is sex on a stick. 

(Source: midnight991)

O TRANSITÓRIO DEFINITIVO

O meu fim é Santa Maria, castelo de passarinhos…
Me casaram várias vezes. Aos homens que feri em brigas pelo caminho, eu dizia:.
- Não há de ser nada; estou de passagem para Santa Maria.
E às mulheres que abracei:
- Fiquem com os filhos. Eu levo a lembrança. Estou indo para Santa Maria, castelo de passarinhos.
Entre as muitas aldeias de pouso, numa acordei com banda de música e gente debaixo da sacada:.
- Senhor, sabemos que estais de passagem. Aqui ninguém presta. Aceitai ser o nosso chefe..
- Eu também não presto, respondi. E estou de passagem. Deixai-me dormir….
E bati-lhe a veneziana..
Fiquei. Armei pontes, retifiquei o rio. Construí piscinas e um auditório onde preguei a centenas de ouvintes. Falaram-me de algumas precisões: um chafariz, uma igreja, uma escola, talvez uma nova seita. Que eu poderia etc… Abri jardim para os namorados, horrorizei-me de meu próprio busto erguido entre as flores do canteiro principal. E quando a moça mais linda que eu estreitara nos braços gemia: “Ó tu que para sempre será meu!”, logo eu atalhava: “Não pode ser, minha filha, não pode ser… Estou seguindo para Santa Maria, castelo de passarinhos…”..
Mais adiante, me condenaram. Respondi aos juízes:.
- Para quê, se estou de passagem para Santa Maria? Mais vale, em vez da pena, um banho delicioso no rio..
E segui caminho..
Há mais de cinqüenta anos que estou indo para Santa Maria. O que não é sacrifício para quem sabe que há de chegar. E enquanto não chego, vou-me distraindo à minha maneira, ora rindo, ora gemendo..
Os pequenos acontecimentos avultam aos meus olhos, os grandes se amesquinham. Tomo parte na vida das cidades, nos negócios dos homens. E se acaso tropeço, não é contra as pedras, é contra a minha sombra..
Prendo-me aos seres e objetos com o fervor de quem vai perdê-los para sempre. Porque afinal este mundo, tal como está, se eu gosto dele um bocadinho, é no momento mesmo em que penso largá-lo. Mas isso eu nunca digo..
E vou andando….
Se alguém pergunta quem sou, respondem todos:.
- Não se sabe. Vive dizendo que está indo para um castelo de passarinhos….
Sempre assim. Quando a vida me aborrece, largo tudo de repente, apanho a trouxa, e vou tocando devagarinho para Santa Maria, castelo de passarinhos…

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cam1sado:

13 DAYS OF HORRORDay Seven: Favorite scene.

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13 DAYS OF HORROR
Day Seven: Favorite scene.

everythingmariska:

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everything hurts