Eu visto a fantasia de três mil vidas a cada noite porque fui abençoada com o dom de sonhar uma particularidade para cada pluma do travesseiro, doutor. Porque a vida não corresponde às minhas medidas. Porque os compartimentos não me cabem. Porque eu não seguro as mãos dos colegas quando é feita a roda de ciranda. Porque o ápice do meu ser, suave ou rude, gritante ou cândido, é corpo-e-alma adentro.
De abismos a arranha-céus, de rasos lagos a limbos caleidoscópicos. Eu atravesso os reinos, as fortalezas, as torres. Eu mergulho em mares e sirvo de alimento a monstros, perfuro olhos sem donos e descubro atalhos no arco-íris. Queimada na fogueira como bruxa, polvilhada de brilhantes como fada, rodeada de flores e odores e pores e nasceres do sol. Minha estesia dá-se diante de olhos de furacões e centros de cardumes, de manchas no corpo e olhares sem íris – agradáveis monocromáticos.
Porque sempre me olham de esguelha se eu confesso para aqueles com os quais convivo, num ataque de sinceridade que me deixa à mercê das invasões em tudo o que de mais precioso tenho e tanto me custa esconder, que o auge da intensidade que me arranca do corpo e transcende todos meus dezenoves anos ocorre justamente quando descanso os cílios do trabalho de conterem a umidade dos olhos cansados, doutor.
Porque acordada, entregue a isto que chamam de “real”, ninguém me permite ter o olhar etéreo. E se eu grito que minha realidade é minha realidade, e que minhas árvores não são iguais as de ninguém, e que minhas calçadas são esburacadas mesmo com azulejos, e que o sol a meu ver é uma brasa muito eficiente, e que o mar deveria viver mais de ressacas, e que ninguém deveria enxugar as lágrimas de outra pessoa e invadir sua tristeza, e que o país inteiro é uma bela camuflagem, e que os piratas deveriam reiniciar suas caçadas, e que eu poderia fundar uma vila só para leitores, e que em um lugar onde todo mundo é belo, na verdade, ninguém é belo, uma multidão inteira faz questão de gritar em uníssono para que eu tranque os lábios com cadeado e nunca mais me atreva a matracar tolices.
Eu me escondo assim, doutor, para viver nos sonhos. Ninguém estanca os pés ao meu lado para me esperar acompanhar os passos ritmados de uma senhora alegre que dança entre as ruas do comércio. À noite, eu sou a dona dos salões repletos.
Eu me contraio assim, doutor, para sentir, à cama, tudo realçado. Ninguém aguarda eu comprar dois cachos de uva ou selecionar acerolas e colher as frutas direto do pé. À noite, eu sou a garota dos pomares multicoloridos.
Eu me finjo assim, doutor, para ser verdadeira no abismo da mente. Ninguém entende os fones de ouvido que tocam o silêncio, respeitosos ao meu desejo de escutar o mudo. À noite, eu sou a herdeira do mundo cor-de-cinza.
À noite eu rio, doutor, eu extasio, eu extraio as gargalhadas e sinto, como jamais senti, e danço até mesmo depois do lado B do LP acabar, e sou eu, mesmo fora do corpo, mas ainda assim em mim. Eu encontro. Eu perco. E vivo a liberdade de ser presa – no surreal.
Seria demais pedir para viver disto? De prazer pleno? De eterno gozo? De satisfação à mão? Eu sei, doutor. Seria. A libertação é temporária e escassa justamente para me satisfazer o deleite. “Quando tudo é belo, nada é belo”. Eu mesma citei. Por isso levanto todas as manhãs com os olhos chorosos e descubro por entre o manto que me cobre a coragem para viver no concreto – para apanhar as lágrimas com as mãos em concha e, como em oferenda, elevar o cálice improvisado aos céus afim de que, após breve prece ao cosmos, eu possa beber do salobro sem me intoxicar.Claudia Calado

(Source: f-earlessness)

(via sangfroidwoolf)

(Source: nothingamazinghappenshere, via butterflyonthewindow)

She is sex on a stick.
(Source: midnight991)

(via thisisnotanexit-)
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(Source: movie-addicted, via holocaustum)

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13 DAYS OF HORROR
Day Seven: Favorite scene.

(via melliflu0uss)

(via lost-in-darkness-alone)